domingo, 14 de março de 2010

Biblioteca

Tenho apenas na biblioteca
As mãos sujas de palavras
A tinta esvaindo-se lentamente.

Tenho apenas na biblioteca
Todos os mundos,
Todos os
Nomes,
Todos os países
desfilando
no olhar.

Tenho apenas na biblioteca
Toda a esperança deste mundo
Reconstruída no papel
acabado de tecer.

Tenho apenas na biblioteca
pena das árvores
que acabaram de morrer.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Apontamento para imaginar um olhar


Uma falua clara

vinha de Istambul
galgando os limiares
entre o mar e as ilhas.

Desprendia na água o fervor
o sabor
a pimenta
e açafrão,
as línguas
corriam suavemente.


Também tu vieste de Istambul
nesse barco,
passeando no convés entre os trabalhos

A água subia-te
doce,
pelos pés

e

As rosas de Cabul
prendiam-se no teu olhar.


Inspirado em " Maio Maduro Maio" por Zeca Afonso.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Lisboa

Poema sujeito a modificações

Li muito e aprendi pouco na tua voz

Como no dia claro,
Aquela vez em Lisboa em que ouvimos os gritos,
O ressoar da cidade, descendo íngreme até ao rio.

Lisboa é uma cidade bonita ao sol,
Pelo brilho das ruas brancas, do Tejo
Os eléctricos que passam de quarto em quarto de hora,
O dia caindo lentamente,
a luz.

E os poetas que passam,
anónimos,
correndo pela rua,
fugindo dos carros.

Apontamento mitológico.

Apenas Ícaro viu as naus
Na sua queda atordoante


Apenas Ícaro viu as naus que voavam
Rente ao mar
Quando abraçou o seio de Tétis
e as Nereides,
E sentiu como um homem pode cair do sol.

Dédalo, enfim,
Partiu.


Criado a 1 de Dezembro de 2009.
Corrigido hoje

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Povo e Ulisses

Quando Ulisses percorreu Ítaca por seu pé
Viu crianças novas a brincarem nos quintais
Sonhos vagabundeando tresmalhados
O curral das cabras deixado ao abandono subtil.

Quando Ulisses percorreu Ítaca por seu pé
Ao lado de Penélope e de uma tela inacabada
Viu Telemáco levar por sua mão os cavalos
Para o estábulo real,
Penélope colhendo as flores
O velho cão ladrando aos ares.

Quando Ulisses percorreu Ítaca por seu pé
Poucos o saudaram, esquecidos do rei
Que os abandonou
para defender uma paixão fantasma,
Ocupados nos seus afazeres,
Gerindo a Terra com mãos de água.

Quando Ulisses percorreu Ítaca por seu pé.
Viu que o Povo prospera sem dono,
Sem um mestre escondido num castelo flutuante,
Vindo com a maré e desaparecendo com as mágoas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Aos meus leitores e comentadores

Quero aqui deixar um agradecimento bastante sincero a todos os que lêem e comentam os meus textos e a minha poesia.

Fico bastante feliz quando percebo que os meus posts agradam e influenciam alguém, sendo uma coisa que me incentiva a continuar a escrever,ou , por vezes a tentar.

Muitas vezes os escritores proclamam que não se interessam por quem lê os seus textos ,poemas ou livros, pois eles valem por si próprios. Para mim, isso é mentira. Uma obra só vale na medida em que influencia o seu espectador( neste caso, o leitor).

Muito Obrigado, dão-me mais vocês a mim do que eu a vós!

sábado, 7 de novembro de 2009

Tributo a Carl Sagan

Hoje é o dia de Carl Sagan. Através dos seus livros aprendi a beleza da Ciência e da Realidade.
Para o celebrar, deixo-vos aqui um poema em tributo. Poderia estar melhor, mas a urgência de o homenagear é demasiada. Considerem-no, talvez, um poema em construção.


Tributo a Carl Sagan.

Dizem que perco a poesia
ao preferir a realidade.
Dizem que me rouba o romantismo
Os sonhos construídos no desejo de morrer.

Que o belo está noutro mundo,
assim como o amor.
Que o que temos é pouco, tão pouco
e que eu devo estar vazio, tão vazio.


Mas como me podem considerar menos romântico
menos poeta, menos completo,
se enquanto eles sonham com o pedaço de Terra que moldaram à sua imagem
Eu sonho o Universo, a glória boreal do Sol, do vácuo,
as explosões massivas das estrelas, os rodopios fascinantes das galáxias,
a poeira das estrelas suspensa num raio de luz.

Mas como me podem eles acusar de cientismo,de brutidão
se vivem numa pequena redoma que não sente nem a aurora
nem o espaço?

Mas como me podem eles acusar de falta de imaginação,
se nem compreendemm o que se estende à nossa volta?

Mas como podem eles ser poetas
se não sabem a realidade?

Porque a Nova Poesia
é a realidade.


Obrigado, Carl Sagan.