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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Aos meus leitores e comentadores

Quero aqui deixar um agradecimento bastante sincero a todos os que lêem e comentam os meus textos e a minha poesia.

Fico bastante feliz quando percebo que os meus posts agradam e influenciam alguém, sendo uma coisa que me incentiva a continuar a escrever,ou , por vezes a tentar.

Muitas vezes os escritores proclamam que não se interessam por quem lê os seus textos ,poemas ou livros, pois eles valem por si próprios. Para mim, isso é mentira. Uma obra só vale na medida em que influencia o seu espectador( neste caso, o leitor).

Muito Obrigado, dão-me mais vocês a mim do que eu a vós!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Inominável

Tenho o sentido das palavras na palma da minha mão. É quente, reconfortante, como o cheiro do verão, dos restos de uma noite quente emanando do pavimento, como nas madrugadas em que o ar se levanta do asfalto, lembrando África e o céu azul.


Não sei que vozes ouço ao longe, além do ladrar dos cães e do vento que me desliza pela espinha, entre a pele e a carne. Só pode ser o mar, clamando e assobiando eternamente.


O mar está azul e o dia amanhece. Visto-me, como e saio para a rua, por entre os carros e o Tejo que serpenteia leve.


Criado:Sábado, 15 de Novembro de 2008, 17:52:36


Modificado: 17-07-09 23:55


Última correcção: 10-08-09 23:46

Testemunho

Não tenho andado pelos lados da escrita.A minha cabeça e o meu corpo, embora extremamente despertos e ansiosos, não têm conseguido juntar as palavras num todo coerente e inventivo.


Embora uma noite, quando estava quase a dormir, tenha composto um poema de torrente, que envolvia sonhos e mares. Adormeci, e agora é apenas uma voz desfragmentada que me ronda os pensamentos.


Não o memorizei, perdendo-o com os fiapos da madrugada.

Nem estas linhas sinto muito criativas, mas prometo não ficar por aqui

.

Prometo que, artisticamente, não morri.

Voltarei em breve, ou assim o espero.

Não.

Voltarei certamente!


Até lá, que pode ser muito brevemente, tentarei colmatar esta lacuna com poemas ou textos que encontre esquecidos.


Por agora, vou de férias.

sábado, 25 de abril de 2009

25 de Abril-O dia da Liberdade


Há 35 anos caiu um regime fascista. Um regime totalitário, que aprisionava as opiniões e os gestos, que paralisava as mentes e as palavras.


Há quem diga que foi um golpe de estado, há quem diga que foi uma revolução , há quem diga que foi um golpe de estado transformado em revolução.

Não sei, sinceramente. Não era vivo nesse tempo e não tenho dados imparciais para esboçar uma opinião.


Sei que se acabou o medo ou que , pelo menos, se reduziu drasticamente.

Sei que a Liberdade voltou.

Sei que se dissesse nessa altura o que digo agora, estaria em Caxias ou no Tarrafal.

Sei que, pelo menos agora, posso falar.


E por isso sinto, festejo e comemoro o 25 de Abril.

Agradeço a quem lutou contra o regime, pela Liberdade.


Ainda há muito que fazer, mas agora, como sempre, depende de nós. Sempre tivemos , individual e colectivamente, a possibilidade de influenciar e mudar a sociedade.

Antigamente era bastante perigoso. Implicava, muitas vezes, um compromisso sério e um ajustamento da vida , uma renúncia a qualquer vida social ou familiar e uma passagem para a clandestinidade, Agora já não, embora exija dedicação, como tudo quando levado a sério na vida.


Mas há uma coisa que não nos podemos esquecer. A Liberdade não é garantida, e não se pode lembrá-la nem lutar por ela apenas um dia por ano.


Tem de ser uma luta e ter uma atenção contínua, uma denúncia permanente de quem nos tenta tirá-la e um carinho firme pelo que é e o que nos dá. Senão, corremos o risco de ficar sem ela. Porque, mesmo sendo um direito fundamental , infelizmente ainda há quem tenha a mania de não a respeitar.


E, principalmente agora, em que muita gente se tornou apática e apolítica , recordo que o que os políticos decidem nos afecta a todos. Não podemos deixar andar, não podemos ficar calado. Temos de falar e de lutar. Não podemos permitir que algumas pessoas ponham a ambição , a crença cega e o interesse próprio à frente da Humanidade.


25 de Abril Sempre

Fascismo nunca mais!

Viva a Liberdade e a Humanidade!


Ps:Por vezes acho que afinal ainda não há tanta Liberdade assim.O tempo virá, temos é que lutar. 04/05/09

domingo, 23 de novembro de 2008

Algumas Palavras

Há nalgumas palavras um sabor quente, um sentido macio e reconfortante, um pequeno prazer que reside apenas nelas, desligada da pompa e circunstância que muitas vezes mutilam poemas e livros com excesso de letras .

Palavras como doce, maresia, mar, amor, sonho quente e sussurro terno.

São palavras e expressões que me agradam, apenas por dizê-las, como carícias ou beijos suaves e enternecidos. Gosto de as usar, como canções de embalar ( a palavra falua tem para mim um fascínio que remonta a uma infância melodiosa).

E depois há palavras que têm em si o mundo, toda uma forma de viver . Liberdade, Igualdade, Solidariedade, Arte Ciência Amor e Dor, palavras que fazem todo um poema, a que se dedica o tempo e o silêncio.

Palavras que são mais que palavras, são acções que se criam na sua escrita, manifestos de vidas e intenções, são uma parte da história do mundo.

É talvez por isto que eu escrevo, para perceber a realidade , o universo , para me encantar e vos encantar com os sons que o Homem criou ao longo dos tempos e o sentido que semeou nas vozes.


(Faltou-me a Saudade, a Felicidade e a Realidade.)

E a Terra, uma palavra que não se perde na paisagem.

domingo, 12 de outubro de 2008

Sobre a igualdade

Da igualdade.

Muito recentemente, o parlamento chumbou uma proposta de legislação criada pelo BE e pelos Verdes, com vista a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Este chumbo é, sem dúvida , uma desonestidade política, principalmente da parte do PS, fundado com base nos princípios socialistas de igualdade e liberdade. Não só isto, como a própria necessidade de se legislar sobre um direito assegurado na constituição (o de igualdade entre sexos e de anti-discriminação ) é só por si uma aberração ultrajante que nunca deveria ter sido verificada.

Como é natural, os sectores conservadores, nomeadamente os religiosos, opuseram-se energicamente ao casamento civil. Esta oposição, justifica-se, segundo eles, porque a homossexualidade é “contra-natura”.

Quando ouço esta expressão fico espantado. Não só porque existem fortes evidências científicas que indicam que a preferência sexual é química e geneticamente determinada, mas porque não consigo perceber como é que uma preferência ou uma propriedade que existe na realidade, e sem ser necessária intervenção humana (mesmo que fosse, se é verificável na realidade, é porque é natural) pode ser considerada anti-natural.

O conceito de natureza é uma generalizações personificativa, ou seja, uma metáfora que engloba e dá um carácter consciente a vários processos, leis físicas e seres vivos que , estando ligados entre si, não fazem necessariamente parte desse ser.

A Natureza, por si, não existe, é apenas um conceito que engloba tudo os seres humanos pensam que transcende a realidade, ideias como deus, a alma e a reencarnação. Logo, a homossexualidade é natural, assim como a heterossexualidade, a bissexualidade e a assexualidade. Tudo o que existe é natural.

E mesmo que, como continuam a defender alguns fanáticos, a orientação sexual fosse uma escolha que se pudesse reverter, não entendo porque é que se teria de o fazer, porque é que consideram a homossexualidade um “comportamento” tão hostil e danoso. Todas as pessoas são iguais, têm os seus sonhos e desejos, os seus pesadelos e virtudes, não sendo um aspecto como a orientação sexual um factor que influencia profundamente o carácter de uma pessoa . E mesmo que o seja, todas as pessoas têm direito à liberdade e à igualdade, não tendo de modelar as suas opiniões apenas porque um determinado sector da sociedade se sente estupidamente ameaçado pelo seu modo de vida. Perceber-se-ia se esse modo de vida lesasse a sociedade, os outros seres humanos (como se fossem delinquentes ou assassinos) mas é óbvio que não o faz.

Todas as pessoas têm direito à felicidade e a um tratamento igual perante a lei, independentemente dos seus valores sexuais, espirituais, morais ou políticos.

Infelizmente, possuímos um governo que se preocupa mais com as sondagens do que com os ideais sobre o qual foi instituído; Ideais e princípios necessários para uma vida feliz e harmoniosa em sociedade, e pelos quais todos nos devíamos manifestar. Quando negam um direito fundamental (um direito de partilhar, legalmente, a nossa vida com a pessoa que amamos) a um certo grupo de pessoa, apenas por serem homossexuais, não negam esse direito só a eles, Negam-no a toda a sociedade.

domingo, 28 de setembro de 2008

Em defesa do LHC

Compreender, ou tentar compreender o Universo não é fácil. Construir uma máquina com o LHC é um feito maravilhoso, que exigiu a perícia, o génio e o trabalho de uma multidão de cientistas e engenheiros esforçados, inteligentes, criativos e pacientes.
O LHC é provavelmente a máquina mais complexa e intrincada alguma vez construída, e os resultados que saírem das experiências irão, muito certamente, mudar a face do conhecimento científico.
Além disso, como aconteceu com a Ciência Espacial, permitirão, muito certamente, um desenvolvimento da tecnologia existente, que poderá beneficiar grandemente áreas como a Informática,a Medicina e a Física e a Engenharia em geral.

Recentemente ,houve um avaria.É natural, mesmo que desanimador. Como já referi, é uma estrutura massiva, gigantesca. Ninguém é perfeito e nem todos os erros se conseguem prever
.O que não tira mérito nem ao propósito nem à concepção do LHC, muito pelo contrário.

Obviamente, já houve quem, por esta avaria, condenasse o LHC ao fracasso. Quem acusasse os defensores e promotores desta maravilha da engenharia e da Ciência de ambição desmedida, prevendo assim o seu falhanço contínuo e permanente.
Esta atitude é uma apologia do obscurantismo e da ignorância, um produto do medo e da arrogância. De quem pensa que o conhecimento é perigoso, preferindo abdicar da Liberdade que ele nos dá pela falsa sensação de segurança que sentem sem ele:
Lá por não saberem o que se passa e o que acontece, não quer dizer que nada se passa e nada aconteça.

Quem toma esta atitude subestima a Ciência, os cientistas e os engenheiros , o esforço da Humanidade em geral, e a capacidade Humana de conhecer.
Não só o faz, como se coloca num perigo auto-induzido:
Porque só conhecendo a realidade, ou tentando conhecer realidade é que podemos tomar as atitudes e decisões que nos proporcionarão eficazmente uma vida feliz, segura, livre e satisfeita.
Para mais, o conhecimento e a informação que a era em que vivemos nos proporciona é um privilégio e um prazer que deveria ser apoiado por toda a Humanidade e não deveria ser negado a ninguém.



Este post é uma reacção ao comentário de Manuel Antunes na Visão nº 812, página 22, que critica a construção do LHC, devido aos problemas observados. Excerto:

"Um aparelho gigantesco, instalado num túnel de 27 quilómetros, algures na fronteira entre a França e a Suíça, tem sofrido problemas sucessivos. E diziam os cientistas que, com ele, poderiam decifrar o mistério da origem do Universo...A ambição do Homeme não tem limites, mesmo quando eles parecem ir além das suas capacidades. Como escreveu esta semana João César das Neves num jornal diário "deve ser horrível ser Deus". "

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ode a uma Desconhecida

Há no tempo apenas o teu sabor. No vento apenas o teu olhar. E para onde quer que olhe, para onde quer que vá, o teu sonho precede-me, desconhecida. O sonho de alguém acidental, de quem passa por entre a floresta de cheiros e palavras que pairam pela cidade.
É nessa floresta que nos enleamos os dois, vagueando deliciosamente pelas calçadas. Acidentalmente perdidos, até os sonhos chocarem e os olhares se cruzarem na mesma linha que percorre o princípio do luar ou o nascer do Sol.





Variação em poesia: Ode a uma Desconhecida

terça-feira, 26 de agosto de 2008

O Poema

“Não te deixes prender aos preceitos da Rima,
Deixa o verbo correr, livremente, à vontade,
e deixa-o procurar o pomo de verdade,
que tanto anima,
a sua ânsia de viver e progredir.”

Excerto do poema Exortação de António Vicente Campinas



O Poema é um conto dançante.

Manejando as palavras como os tecelões manejam a seda, o Poema constrói música, enredando-a suavemente à volta da história que tem de ser contada, modificando-a e metamorfoseando-a até atingir um nível de elegância e sensualidade que sublime e harmonize a força original.
Porque um poema, como um conto, começa sempre numa frase, num rascunho de uma ideia ou pedra basilar que consolide todo o poema.

Como uma árvore, o Poema necessita de raízes e tronco, sendo o primeiro a sua essência , ou apenas a vontade do autor ( onde o Poema se alimenta, e de quem o poema nasce) e o segundo a chave , o mastro em que todo o poema se sustêm (uma ideia, uma palavra, um odor, ou tom, que emana do poema, quando saboreado)
Muitos Poemas são gritos desesperados, outros danças aparentes, alguns apenas o sabor de uma tarde suave guardada nas palavras de quem o escreveu. Mas todos os poemas expressam uma ideia, mesmo que vaga, do autor e do ambiente onde o autor está, ou estava, inserido.

No entanto, como todas as obras de arte, um Poema tende a mascarar-se para quem o lê,pois ao ler, o indíviduo interage activamente com o Poema, não se deixa apenas estar sentado, acabando por reescrever mentalmente o poema de acordo com as suas próprias sensações e experiências.

Porque somos todos filhos da mesma cepa e as emoções são universais:
Mesmo depois de toda a evolução sofrida ao longo de gerações e gerações e gerações, cada um de nós continua a ter em si um vestígio dos primeiros seres humanos.

Não só dos seus medos e ilusões, mas também dos seus desejos e alegrias.
E, principalmente, da semente de imaginação que foi desabrochando ao longo dos tempos e das palavras.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Reflexão inconstante

Há, por entre os sonhos esquecidos, aquele encanto ledo e frágil, quase efémero, como o orvalho que se esquiva das ervas espraiadas pelos jardins da cidade. Quando lembrados neste alvor de aurora, recordam-nos o que fomos e o que somos, ou seja, edifício de emoções, pensamentos e memórias que fomos empilhando ao longo da nossa história:

Como uma cidade em constante mudança, ora crescendo ora encolhendo, consoante a hora do dia ou da noite, transformamo-nos e reorganizamo-nos, de acordo com as exigências do dia e com as necessidades do ser.

Mas existem aquelas alturas em que voltamos aos sonhos esquecidos, aos sonhos que foram relegados para alturas mais oportunas. Por vezes e espantamo-nos com diferença que sentimos, com o tempo que passou.
Sentimos uma solidez por os nossos sonhos serem agora mais reais, já quase concretizados. Como na altura em que éramos crianças e queríamos ser grandes, crescidos.

Agora já somos grandes.
Crescidos.

Homens e Mulheres na flor da idade.

Noutras alturas, conciliamos o sonho com a realidade, com um sorriso que ilumina o dia, como a madrugada entrando pelas festas das casas adormecidas. Atingimos o nosso objectivo, através da inteligência, paciência e da necessidade de querer.

Como este texto, por exemplo. Era um sonho esquecido, adiado pela falta de tempo e vontade. E de repente, como quem não quer a coisa, sai assim, quase ininterruptamente, como um suspiro de alívio ,
uma lamentação contente e inconstante.

Em suma,
uma lamentação feliz.

Há sempre sonhos na vida das pessoas. Mais do que um, normalmente.
E continuo a pensar que a melhor forma de viver é transformar em sonho a vida que se leva e as coisas que se fazem.

Gozar a vida, pois somos a vida que fazemos.

Pois, para não desperdiçar um segundo, não podemos pensar em como poderia ter sido, mas sim que, como foi, foi bastante bom.
E, se não foi bom, tornamos o próximo ainda melhor.

Enfim:
Carpe diem , porque és ele.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Escuta o som que vem do riacho.

Escuta-se, pelas janelas caiadas de branco e carmesim, o som do sol caindo entre o ciciar dos pinheiros. Sente-se a terra a revolver-se, fluida, entre mantos e mantos de magma flamejante, rios surdos correndo por entre os vales e montanhas das fronteiras telúricas. E, por cima da seda arenítica coberta pelas ervas que crescem lentamente, sentem-se as correntes do vento e o cantar dos pássaros, das andorinhas que voltam certas, como as flores que cobrem, certamente, as oliveiras estendidas pelos solos distantes, e as amendoeiras que nascem por entre as colinas das Serras , entrecortadas pelos arroios esquecidos e pelas sombras do entardecer.
E eles caminham, calmamente, com a sabedoria de quem não esqueceu o passado e a quem não aflige o futuro, aproveitando a brisa da tarde, por entre a melodia que se escapa do anoitecer e do Sol que brilha com esplendor.
E são felizes, pois sabem que viver é viver.

E nós também caminhamos, ou queremos caminhar.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Alguns Sonhos.

Todos temos sonhos escondidos, que se escapam por entre os dedos como as cinzas do nascer da aurora.
Sonhos que ardem, tresmalhando-se aos poucos por entre os raios de sol ou a chuva tímida que banha, como orvalho, o despertar estremunhado por entre o som de uma nova manhã apressada.
Guardamo-los todos os dias entre os olhos, por entre os lábios, em sussurros inaudíveis. E vivemos todos os dias com esses sonhos entalhados na consciência.

E há quem os tenha e há quem os crie e há quem os viva.

Todos somos animais. Desde a primeira célula viva, dotada de animação e de capacidade de se reproduzir, até à complexa simbiose celular que nós somos, passaram milhões de anos.
Anos em que, por necessidade ambiental e selecção natural, as células se foram desenvolvendo através de mortes e cooperações. Até nos formarem, várias foram as espécies que morreram (Quase todas as espécies morreram.)
E cada um de nós está aqui por um golpe de sorte. Mas também por vigor.

Fomos construídos pelo tempo , pelo meio e pela urgência de viver , como castelos andantes , pensantes e sensíveis a cada desejo que nos percorre o corpo e vagabundeia pela mente .

E agora que sabem de onde vieram, sabem porque é que vieram?
Por nada.
Razão nenhuma.
A vida não tem um sentido absoluto, não tem razão exterior.
Mas tem razão interior. Cada sonho de cada um. O que consideramos essencial:

Família,
Prazer,
Sucesso,
Amor,
Liberdade,
Desejo
Fraternidade.

E ainda bem que não há razão exterior nem objectivo que sejamos obrigados a completar. Isso permite-nos escolher os nossos. Permite-nos viver de consciência tranquila e com um sorriso nos lábios, sem temer os castigos eternos.
Aceitar o que realmente é e aceitar o que não sabemos, é, assim, bem melhor que inventar desculpas e justificações mal formadas.

Portanto não se preocupem. Vivam e deixem viver. Desfrutem, pois só estamos cá uma vez, e, bem vistas as coisas, até é agradável.
E façam os outros desfrutar.

É isto que têm em comum os sonhos da Humanidade.

Sonho de um dia de Verão

Recortamos o Sol por entre as nuvens, ao entardecer.
Enquanto a cidade caminha lentamente, observamos a luz que desmaia, iluminando a poeira que baila por entre os entalhes do ar.
É um daqueles dias em que se vence a chuva e se volta a imaginar o Sol na sua verdadeira imponência, uma esfera em fogo, enérgica e dinâmica, revolvendo-se e queimando-se interminavelmente.
Em que se volta a imaginar as reacções no núcleo, transformando a matéria e libertando toda a energia que nos domina.

E nos maravilhamos com o que existe.
E nos voltamos a maravilhar com o que realmente existe.


E enquanto vagueamos por entre a luz derramada, talvez sentados num banco ,com a brisa que nos anima, ou à beira da corrente de um rio que se enleia por entre as pedras e o cheiro a maresia, sentimos o que realmente somos, e isso enche-nos com a calma , os sonhos e o prazer que se esconde por detrás das preocupações.
E sabemos que não precisamos de mais do que o que existe e o que é, e que o mundo, todo o espaço universal, não tem propósito, nem consciência, mas faz sentido e é belo.


E entendemos que perceber o que existe é adorar o que existe, e que todas as explicações reais são melhores que as inventadas. Percebemos que o Sol ser o que é o Sol não lhe tira imponência nem poder, e que o Homem ser o que é o Homem, não ser o fim nem o centro de nada , não nos tira a importância que sentimos.

E que estar tudo ao nosso alcance nos dá o poder de mudar o mundo.

Continuamos a
Recortar o Sol, ao entardecer,
por entre o deslizar das palavras.

domingo, 9 de março de 2008

Para Sempre

Perco-me por entre as linhas que rascunham a sala.
Por entre os interstícios, cantos esquecidos na poeira e na cinza , entrevejo o ar que flutua errante, os dias que renascem do passado, a névoa de pensamentos perdidos deslizando dos olhos para o vazio do tempo, como o fogo que se apaga em fumo enleado na brisa que se precipita de encontro ao solo –partículas que chovem em rios prateados.


Quero contar o que existe, e sei tão pouco do que existe.

E fecho os olhos, num impulso eléctrico.
Recordo o mundo que se estende para lá, infinito suave que acaba nas ondas estelares lançadas ao vento.
E os sonhos fogem, correm na busca perpétua da aurora que se escapa por entre os dedos cansados – grãos de areia engolidos pelo fim do horizonte.

Mas há vida para lá do horizonte.
Outros sonhos. Outras mágoas.
Outros brilhos. Outras estrelas.
Outra luz que dança por entre outras folhas que cantam à lua que passa.

Porque o infinito é sempre mais que o infinito.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Para lá

“Todos somos pó de estrelas”- Carl Sagan



Não me perdi.
Apenas me esqueci no tempo que passa entre palavras.
Delírios suaves que banham, como orvalho, os sonhos que outrora se estenderam no cosmos,
Estendo o olhar e os sentidos, no cansaço eufórico da descoberta. Porque são os sonhos que nos levantam metaforicamente do chão, levando-nos pelo horizonte que se afunda no cessar da aurora.

E saber que há mar para lá do horizonte, é saber a mar para lá do horizonte.

Respiro. O ar queima em golfadas, estendendo-se pelo bronquíolos e pelos alvéolos e fundindo-se no sangue que passa.
Despertando o corpo em aguilhoadas, furores prementes que correm os nervos.
Pressinto as moléculas correndo alucinadas entre as células, os tecidos contraindo-se em espasmos rubros, o corpo balançando ao sabor do impulso, da maresia , como o sangue que se esvai do coração pelas veias , canais carnais que percorrem o corpo .

E enquanto aprecio o movimento interno, ouço o murmúrio da luz que ondeia entre as partículas, frestas de um nada.

Canto das estrelas,
Música que me chega trazida pelo vento solar.

Porque as estrelas cantam enquanto esculpem a matéria.
Matéria de sonhos. Matéria de vozes.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Amar o Mar

Sei a chuva que cai sobre o mar.
Estende-se a calçada para as ondas que revolvem a areia pálida.
Sentem-se os barcos, sonhos correndo na brisa das águas.
Ouve-se o canto da maresia, ritmo lento que rasga os gritos do cais e compassa com a agonia das gaivotas, rapinando peixes que trespassam o tumulto das correntes.
As nuvens, desfazendo-se no céu azul claro, deixam as últimas gotas desamparadas diluir-se no reflexo verde e branco.
E a Luz baila por entre o ar em raios que sulcam os ventos celestes, brilhando por entre o infinito, numa visão sem limites e sem palavras.
E continuam os barcos, ao longe, pequenos pontos opacos recortando a ternura furiosa das marés.

Navegar é preciso, viver também é preciso.